14 de mar de 2010

VERSOS EM PROSA OU A VIDA FEITA EM MERDA


sei que te amo, sempre o soube, soube-o desde o momento em que nasceste, na manhã da minha vida, no primeiro segundo da vida, no primeiro sopro de fé, sei que te amei sempre, sem nunca vacilar, determinado ou distraído, sempre bateu em meu peito esta vontade de te ter, perto, junto, no redor dos meus braços, sempre onde te pudesse deitar a mão para não caíres, em tentação ás vezes, sofrimento outras, mas sempre perto, do coração, da alma, do corpo, do pecado, da dor, na partida inevitável, diluviana e rancorosa, do partir sem chegar, do imaginar a solidão acompanhado, do medo, do desconforto, da teia tecida pelo ciúme, que tudo corrói assim que chega, desconforto das palavras de adeus, transpiradas e nervosas, tempo de promessas e horrores, te amo…

sei que te odeio, ou pior, te ignoro, sem tempo para ilusões, nem choros, só o rancor perdura como objectos na cidade perdida, amores na cidade proibida, receios da luz, vidas no fogo, crematório de pecados acabados, choro raivoso, perda de razão, nas palavras do ódio, sementes de violência, afectos cobardes, vidas alarves e miseráveis, vejo em ti o rosto da morte, travestida de vida, mentirosa e enganadora, tanto te odeio, nem chegam as palavras lavradas na miséria dos proletários, olhos vermelhos, ardem de loucura, abafada em gemidos doridos, rosnar feito louco, cão raivoso, pede abate, vida inútil, merdosa, frouxa, ignóbil, pegajosa e perversa, assim é a tua, te odeio mais que a vida, mais que a morte, rasgo a carne, raiva em espuma, de uma boca sangrenta, te odeio…

sei que não sou eu que falo, talvez nem exista, tenho dias assim, outros diferentes, mas sempre na dúvida, se existo ou fui inventado, e a ti procuro, feito um doido, no meio dos livros, terá sido um conto, ou um poema, um verso solitário, uma rima que ficou, esquecida nas palavras avulsas, produto da imaginação, sinfonia inacabada, ideia gerada nas palavras, existência irreal, terra de sonhos, noite desconhecida, negrume das paixões, desejos inacabados, incerteza, fecho janela, que dá para a vida, a porta dos sonhos, a realidade escureceu, é quase noite, dormem as fadas e os duendes, as histórias de encantar, presas dentro de um livro, de capa azul, e adormeço, sem saber se existo, sei que não sou eu…

Atit Ordep

Foto de José d' Almeida & Maria Flores

2 comentários:

Ferina*izil* disse...

Adorei:-)
izil

Anne Lieri disse...

Que texto comovente e muito lindo!Adorei!Bjs,