28 outubro 2007

VENTO



Não lhe abandonei
Meu coração bate
Fica mais escarlate
Quando bate "você", "você"
Estou redundante
quando digo coração, você
Tremo as peles
É o meu sofrer
Querer e não tê-lo perto
Espere e vou aprender
Este sentimento confuso
Você e confuso é redundante
Este é o meu parecer
Tremer as peles de medo
Isso me faz aprender
O vento me beija
Queria que fosse você

(ferina*Karolina B)

26 outubro 2007

SAUDADE


sentado na beira de uma janela
no alto de um dia soalheiro
observo a espuma do tempo
a rebentação das ondas nas rochas costeiras

sinto a brisa húmida
afagar-me o rosto
não tenho mais lágrimas para chorar
não tenho os teus olhos para mergulhar

miro o horizonte e olho para nada
é o vazio nos meus olhos
deixado pela tua partida
é o tempo da saudade
que o mar me traz

no alto do forte do Pai Mogo
avisto os dias avulsos
de perdas e desencontros
dias de saudade de ti

Atit Ordep

Foto SCX

24 outubro 2007

BUSCA INÚTIL


Gente
andando,
parando,
seguindo...
Rostos
sérios,
tristes
sorrindo...
Um vai e vem
sem fim...
E eu
andando
pra um lado,
pra outro,
às vezes parando
aqui e ali,
sempre olhando,
procurando,
buscando,
querendo,
encontrar
você!
.
Suely Ribella ©

22 outubro 2007

SEM MARGEM


sem margem
por onde transbordar
o rio corre nas veias
como sangue espesso
vermelho e quente

sem margem
para duvidar
vive neste peito
um amor que arrasta
os dias para a loucura

sem margem
de erro
vive no fio da navalha
como um anjo proscrito
vivendo a eternidade
de um amor extraviado

sem margem
onde aportar
navega à vista de ti
invisível aos teus olhos
um amor verdadeiro
que nunca será revelado

sem margem
de dúvida
que acreditar não basta
para um sonho se realizar

Atit Ordep

Foto de Amanda

20 outubro 2007

NEGAÇÃO


não
não, não e não
bem, não me parece
talvez não
mas quem sabe
acho que não
não sei que sentir
não, não me abandones
não, não te esqueci
não, não me deixes
aqui, só
não, não sei
acho que não te disse nada
não, de facto, não disse
só o trivial, não mais que isso
não quero mais
negar o que sinto
mas não sei
exactamente o que sinto
não, não sei
talvez, quem sabe
não terminou tudo assim
não, não sei
não te amo, não to disse
não, é verdade
não, não quero
e não sei
o que sentir
não estás aqui
não, nunca estás
não te decides
não sabes o que queres
não estás boa da cabeça
não, não chores
tu não sabes
mas tudo acabou
nunca tinha pensado nisso
eu não penso, existo
não para ti
não para o mundo
não para a vida
apenas existo na morte negada
pela existência deste amor
jurado até à morte
e sempre negado pela vida

Atit Ordep

18 outubro 2007

NÓS NOS ENGANAMOS

Vamos fazer de conta
que tudo é real.

Você diz que me ama.
Eu digo que te amo.

Você me engana.
Eu te engano.
Nós nos enganamos.

Mas não importa.

Tudo é passageiro.
Acaba ligeiro.

Novos parceiros
vamos encontrar.

E assim seguiremos:

dois vazios
de coração,

dois incapazes
de enfrentar
o verdadeiro amor.

.

Artesãdaspalavras | izilgallu
Ferina Izil

16 outubro 2007

SOB O SIGNO DA LOUCURA



Se eu vivesse em outra época,
com certeza seria
queimada em uma fogueira
como se praticasse bruxaria.

Meu fascínio pela alquimia
me faria padecer.
Sob o signo da loucura,
me atariam a uma cruz.

Meus sentidos aguçados
fazem-me tudo desvendar.
Ouço o som dos imortais,
com os quais oriento a vida.

Sei segredos seculares.
Tenho fórmulas milagrosas.
Posso ler pensamentos
e saber sentimentos.

Minha sina é pesada.
É difícil disfarçar.
Mais difícil é não falar
dos segredos do universo.

Sei por que brilham as estrelas.
Sei por que geme o mar.
Enlouquece-me quando o vento
traz milhares de vozes seculares.

Sei de tudo e de todos.
E como tudo é fascinante!

São segredos tão diversos
que povoam tantas mentes.

.
Ferina izil
Artesãdaspalavras | izilgallu

14 outubro 2007

CHUVAS



Enquanto lá fora chove,
em mim, lágrimas caem...
Há sempre sonhos em nós...
.
Suely Ribella ©

12 outubro 2007

NA TUA VOZ


na tua voz
vive o meu sonho
de criança feita homem
ouço o teu cabelo
roçar nos teus ombros
ouço a rebentação das ondas
no meu peito
quando dizes o meu nome
de uma forma
imersa em sedução

na tua voz
cabe todo o meu desejo

na tua voz grave e cativante
vive o meu choro
de criança perdida
que se ouve como ruído de fundo
de um filme antigo

Atit Ordep

10 outubro 2007

MUNDO MUNDANO



MUNDO MUNDANO

Ela queria enganar o destino.

Mas não era isso
que a vida lhe tinha reservado.

Era para ser tudo lindo,
limpo, belo,
extremamente correto.

Mas ela não queria esse caminho.

Queria provar o outro lado:
o sujo, o feio,
o errado, o profano.

Ela queria saber a diferença
entre os dois mundos.

Queria sentir outras emoções,
outros prazeres,
que o seu mundo não permitia.

Precisava experimentar
aquele outro lado
para descobrir em qual deles
poderia ser feliz.

O que ela não sabia era que,
uma vez naquele mundo,
não haveria como sair.

Não existia escapatória.

Ali provaria a tentação.
E, uma vez tentada,
não havia mais saída.

Tornar-se-ia uma viciada
no lado mundano da vida,
no lado profano.

E ela...
ficou.

E ela...
gostou.

.

Artesãdaspalavras | izilgallu
Ferina Izil

08 outubro 2007

ENTRELAÇADOS

Nós dois sabemos de nós.
Temos nossos segredos
guardados a sete chaves.

Somos dois entrelaçados.
Nossos destinos
estão cruzados.

Entre nós pode haver
uma grande paixão...

ou não!

Pode ser coisa
de predestinação.

Pode ser coisa séria.
Pode ser mais
do que isso.

Pode ser
alucinação.

ferina izil
Artesãdaspalavras | izilgallu



06 outubro 2007

TEU ROSTO


teu rosto
esfuma-se em formas difusas
no baú das minhas memórias.
como uma velha foto
uma imagem antiga, sumida
o que resta de ti.
quando quiser recordar
os contornos do teu rosto
estes traços apagados
não me lembram ninguém
e tu poderás ser qualquer pessoa
que eu queira reviver
na ilusão de uma vida
infecunda.
a alucinação do amor
sucumbe ao poder da eternidade
dos dias feitos anos
dos anos feitos apocalipse.
O cataclismo das almas desonestas.

Atit Ordep

04 outubro 2007

A VIDA LEVA...


A vida, às vezes, nos leva
para onde queremos ir,
mas, nem sempre a vida nos leva
com quem queremos seguir...

Vamos, que nos leva a vida,
e vamos a vida levando,
qual paralelas, na vida
seguindo e não se encontrando...
.
Suely Ribella ©

02 outubro 2007

O AMOR NÃO TEM COR


para Crónica

o amor não tem cor
é cego
o amor é dádiva
de sensações e cheiros
de festa
de fogo de artificio

o amor não tem cor
tem som
de palavras doces ou ácidas
de arfares descontrolados
de sussurros na noite

o amor não tem cor
tem imagens
de corpos nus
de pernas e braços entrelaçados
de rostos e beijos
a preto e branco
numa escala de cinzentos infinita

o amor não tem cor
tem-te a ti
um coração enorme
um vulcão adormecido
uma gata no cio
uma vontade de agarrar a lua
e faze-la girar na tua órbita

mas o ódio e o preconceito
têm cor
pardacenta e suja
como as almas
que neles se consomem

Atit Ordep

Foto de Atit Ordep

30 setembro 2007

SEI LÁ



sei lá
se valeu a pena
andar à chuva descalço
sei lá
se valeu a pena
sonhar um futuro cinematográfico
sei lá
se valeu a pena
copiar os versos de Neruda
sei lá

sei lá
se vale a pena
acreditar na mentira
sei lá
se vale a pena
fugir da realidade
sei lá
se vale a pena
ser um cobarde disfarçado
sei lá

sei lá
se valerá a pena
cobrir teu leito de rosas
sei lá
se valerá a pena
acender velas no quarto
sei lá
se valerá a pena
deixar Ravel ecoar na penumbra
sei lá

sei lá
se valeu a pena esperar
se vale a pena acreditar
se valerá a pena chorar
sei lá

Atit Ordep

28 setembro 2007

QUE BOM


que bom
ver esse sorriso
divertido e malicioso
estampado no teu rosto
que bom
ver esses olhos
brilhar como diamantes
que bom
a alegria que irradias
que fresco o amor
que espevita o fogo
onde te vais fazer fêmea
de verdade
que bom
assistir na plateia
a mais um filme em reposição
que bom
me fazeres lembrar a Garbo
e as neves de Estocolmo
que bom
ser contaminado
por esse amor imaculado
que bom

Atit Ordep

26 setembro 2007

VOLTASTE COM FOGO NO OLHAR


voltaste com fogo no olhar
e o demónio no corpo
para me fustigar o canastro
com torturas diárias de jogos eróticos
trouxeste a chuva ácida
os ventos ciclónicos
o calor equatorial
a humidade sufocante
e o apetite insaciável de um carnívoro
para esta tua reserva de caça
voltaste equipada
com garras e caninos afiados
e um apetite do outro mundo
para me devorar até ao tutano
e deixares os meus ossos
espalhados na vastidão da savana

Atit Ordep

Foto de SCX

25 setembro 2007

MAIS UMA VEZ



Tudo não passou de ilusão.
Nada era verdadeiro.
Nada real.

Só palavras.
Só mentiras.

Mais uma vez eu acreditei.
Mais uma vez
me enganei.

Só era brincadeira.
Somente um capricho.

Você conseguiu.

Brincou com meu coração,
fez dele um palhaço
e com ele se divertiu.


Artesãdaspalavras | izilgallu
Ferina Izil
Foto Jet

24 setembro 2007

PROBLEMAS


Problemas, quem não os tem?
Eu não conheço ninguém...
Mas com jogo de cintura
a gente consegue driblar,
ou então com diabrura
a gente vai empurrar
para alguém os resolver...
Problemas ninguém quer ter!
E sendo dos outros, então,
Aí ninguém quer saber
de encontrar a solução...
Tem problema que aparece,
tem o que a gente procura,
mas qualquer deles merece
depressa uma solução
que acalme o coração...
Quando eles aparecem
a gente tem que encarar,
e o jeito é resolver
para logo se livrar.
Mas se eles permanecem
não há outro jeito a não ser
a melhor forma buscar
de com eles conviver...
.
Suely Ribella ©

22 setembro 2007

PERDI O RASTO


perdi o rasto
ao sabor dos dias imaginados

perdi o rasto
das memórias inventadas
nas tardes de desassossego
dos planos do futuro
forjado em corpos transpirados

perdi o rasto
de mim
de ti
do calor dos dias
na palma da mão

perdi o rasto
das quimeras douradas
dos anúncios de detergentes
que lavam o corpo e a alma

Atit Ordep

Pintura de PJ Crook

21 setembro 2007

NA BEIRA DO ABISMO


na beira do abismo
inclino-me
e vejo a minha imagem reflectida
no medo
e no pudor da vida acanhada

na beira do abismo
experimento a sensação
de uma emoção forte
percorre-me o corpo
o gozo da queda
e imagino-me morto no asfalto

na beira do abismo
onde eu vivo
a vida é uma miragem
os cães vadios
são meus irmãos
a solidão
é minha companheira

Atit Ordep

Foto de Nuno Estrela

19 setembro 2007

TU SABES


tu sabes
que te amo
eu sei
que sabes isso

tu sabes
que te quero
eu sei
que o desejas

tu sabes
manter o lume acesso
eu sei
que me vou queimar

tu sabes
arrumar o passado
eu sei
como sonhar o futuro

tu sabes
que eu sei
e eu sei
que tu sabes
o que mais ninguém quer saber

tu sabes
que acabou
eu sei
que tudo vai começar

Atit Ordep

Foto de Francisco Nogueira

17 setembro 2007

MULHER VI


a mulher, delicada
como uma flor
respira pausadamente
em sintonia com o universo
em movimento constante
dela é o futuro das coisas
o passado das gentes
dela é a virtude dos seres
a lógica dos dias perpétuos
dela é o ventre
onde tudo começa
e onde tudo acaba
dela é o meu tempo
o meu corpo

Atit Ordep

Foto de Kazuo Okubo

15 setembro 2007

PESSOAS VEM, PESSOAS VÃO...


Sempre tem alguém
que chega fora de hora
e sempre tem alguém
que se vai antes da hora...
Passamos pela vida
e a vida passa por nós...
A razão vai distraída,
o coração ergue a voz...
Um encontro casual
pode se transformar
em grande história de amor...
Um desencontro banal,
pode depois se tornar
um grande inferno astral...
As pessoas se procuram,
e na ânsia de encontrar
vão tentando se acertar...
As pessoas não se acham
e na ânsia de acertar
vão tentando se encontrar...
Pessoas vem, pessoas vão...
Sentimentos também...
Pessoas vão, pessoas vem...
Sentimentos também...
.
Suely Ribella ©

13 setembro 2007

MULHER V


a mulher, teimosa
parece um asno
tão obstinada que é
tem ideias fixas
como uma mula
fala com os peixes
tem uma vida de cão
vive só como a ursa
ri-se como uma hiena
feia como uma macaca
só vai acasalar
quando as galinhas
tiverem dentes
tornou-se uma melga
gosta de zumbir aos ouvidos
tem um ar de vaca
come como uma porca
grasna como um pato
deve ter apanhado uma cadela
não entendo o que diz
ladra à minha porta
mas no meu condomínio
não me deixam ter cães
acho que o animal gosta de mim
mas eu estou bem assim

Atit Ordep

Foto (alterada) de Kazuo Okubo

Post-Scriptum – Qualquer dia as Feras correm comigo deste Blog!

11 setembro 2007

MULHER IV


a mulher, rebelde
reflecte sua imagem
no calor do estio.
ao longe
como uma imagem ondulante
quase fantasmagórica
sobressai nas brasas do meio-dia
que queimam a terra ressequida.
ela vem planando
numa nuvem de fogo
incendiando as criaturas
que ousam enfrentá-la.

Atit Ordep

Foto de Kazuo Okubo

09 setembro 2007

MULHER III


a mulher, sensual
move-se lasciva
selvagem
como um animal livre
felina no passo
predadora por natureza
arranca os corações
às suas presas
indefesas

Atit Ordep

Foto de Kazuo Okubo

07 setembro 2007

MULHER II


a mulher, perfeita
enfeita o corpo
com luzes de natal
celebra a paz e o amor
mais tarde
coloca-se sobre a mesa
para ser trinchada e devorada
pelo espírito natalício

Atit Ordep

03 setembro 2007

SOLIDÃO




Solidão.

Resultado de uma busca inútil,
batalha ganha contra a alegria,
abrigo das esperanças perdidas.

Chega silenciosa,
instala-se,
ocupa os espaços
que a vida deixou vazios.

Aos poucos,
deixa de ser ausência
e passa a ser presença.

E já não sabemos
como sair dela...

porque a solidão,
quando nasce dentro de nós,
aprende a ficar.

.

Artesãdaspalavras | izilgallu
Ferina Izil

01 setembro 2007

TE IMAGINEI


Fechei os olhos
Idealizei-te
Eras perfeito
Dei-te um nome
Dei-te vida
Dei-te amor
Abri os olhos
Vi-te real
Desiludi
Enganei-me
Não era nada igual ao
meu sonho idealizado
Tu eras apenas
um homem comum
Não tinha virtudes
Não sabias amar
Tu eras só um marginal

.
Artesãdaspalavras | izilgallu
Ferina Izil