30 de out. de 2008

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS


o mundo tem o tamanho
do teu pé
a culpa tem o tamanho
da tua mão

sinto-me esmagado
quando me pisas
sinto-me esmurrado
quando me acaricias

Atit Ordep

Foto de Varck

29 de out. de 2008

ESTOU TÃO CANSADO


Estou tão cansado
mesmo moído
quase moribundo
quero fechar os olhos
sinto um formigueiro morno
percorrer os meus ossos
da cabeça aos pés
quero desfazer-me
deste corpo sem energia
desligar este cérebro
avariado
não pensar mais
nunca mais sonhar
não pensar em nada
nada, mesmo nada
entrar num vácuo
ser sugado por buraco negro
e desaparecer
para longe, longe
muito longe
de ti.

Atit Ordep

28 de out. de 2008

A FELICIDADE


Você, amigo ou amiga, que me lê,
por acaso alguma vez
já pegou nas mãos um pouco de areia,
daquela bem fininha e sequinha,
e tentou segura-la toda?!
Já percebeu como não adianta?!
Os grãos, de tão finos,
escapam por entre os dedos,
sem que os consigamos deter...
Pois bem, assim é a felicidade,
se não a sua, ao menos a minha assim é:
como finos grãos de areia,
que se me escapam
sempre que a quero prender...
.
Suely Ribella ©

26 de out. de 2008

FÊNIX





Hoje te vi
Surpreendi-me,
nada restou do meu amor
mais que amor, era paixão
E, como o vento, passou
nada ficou
Só indiferença
tua presença nada me diz
Tanto amor onde ficou?
Tanta paixão como acabou?
Ciclo da vida,
tudo transforma,
tudo renova
Velho amor, cinzas virou
Não eras fênix,
e das cinzas não
vais renascer
.
Ferina izil

20 DE OUTUBRO 2008

25 de out. de 2008

É MAIS UM DIA


é apenas mais um dia
igual ao dia anterior
igual ao dia de amanhã
é apenas mais um dia
passado, revisto e aumentado
é mais um dia, apenas mais um dia
de vidas atormentadas
girando em círculos inúteis
são beijos arquitectados
abraços pensados
vais fantasiar
é a mão que te afaga o cabelo
e que agarra a tua cintura
é a mão na mão
e o sol morno da tarde
no teu peito generoso
é um beijo terno
e um abraço fraterno
é o fim de um dia sonhado
é um dia imaginado
é um dia igual ao de ontem
é um dia igual ao de amanhã
é um dia, apenas mais um dia imaginário
de uma vida imaginária
e amanhã não vais pensar no passado
porque ele não existiu
foram dias chatos e cinzentos
que tu riscaste dos teus sonhos
e amanhã vai renascer o desejo
de um dia verdadeiro
de acordares com um beijo na nuca
e um desejo louco
de te entregares a outro corpo
que não o teu
mas vais acordar só
e ligar a televisão
comprar uma revista cor-de-rosa
e viver um dia virtual
igual ao passado
igual no futuro

Atit Ordep

24 de out. de 2008

AS PALAVRAS TÊM PRAZO DE VALIDADE


as palavras têm prazo de validade
não as podes usar infinitamente
tens de pintar os nomes das coisas na pele
tens de usar as mãos para colorir os dias

o amor não vive só nas palavras
respira nos olhos da serpente
que se nos enrola no pescoço
e nos faz sentir
como um cubo de gelo
num corpo escaldante

as palavras do amor
têm vida para além dos escritos
são o repositório das músicas
presas no tempo dos acordes iniciais
de um sonho

não repitas mais as palavras do amor
porque gastas a tinta que pinta o sonho
não te ausentes mais do meu corpo
porque gastas o sentido das palavras

Atit Ordep

(Ferino num desatino)

23 de out. de 2008

GUARDADOS


Seguimos pela vida
guardando coisas,
que bem poderiam
ser descartadas de imediato,
outras que sabemos de antemão,
não vamos precisar,
não vamos usar,
mas guardamos,
e vamos acumulando
sentimentos doentes,
desgastados,
e outros fantasiosos...
E vamos entulhando
os móveis, a casa,
o pensamento, o coração,
com coisas perfeitamente
dispensáveis,
e não percebemos
que a vida não anda, se arrasta,
devido ao peso
desses guardados...
.
Suely Ribella ©

22 de out. de 2008

AQUI ESTOU DE NOVO


aqui estou de novo
no meio do povo
ordeiro, sereno
novas formas
de tiranias antigas
desfilam com o brilho
da modernidade

aqui estou mais uma vez
calado, humilde
inclinando a cabeça
afirmativamente
satisfazendo caprichos
dos novos soberanos
com cauda e chifres

Atit Ordep

Foto de Bernardo Coelho

21 de out. de 2008

REPLAY



dentro desta caixa
de sons e imagens
onde vivemos
contemplo rostos gravados
em horário nobre
assisto a histórias novas
baseadas em velhos argumentos
agora a cores

nesta reposição
de um antigo êxito
a imagem foi retocada
e as cenas cortadas
voltaram ao seu lugar
com uma banda sonora de sonho

não consigo visualizar
quem fora desta caixa
detém o telecomando
que controla a nossa vida
queria pedir-lhe para carregar
na tecla do Replay

Atit Ordep

20 de out. de 2008

NO SOLO PROFUNDO



Terras guardam no subterrâneo

O que dizem ser fonte de vida


No inferno é o mel das feridas


No céu é vinho de nenhum sabor


Encontrei-a no poço mais escondido


Cavando em versos transcritos de dor


Pra essa água digo "Não! Por favor!"

E esse meu grito desde o céu ecoou


(Ferina * Karolina B)


[Foto de Martin Kovalik
]

18 de out. de 2008


Hoje estou me sentindo só.
Como se não houvesse no mundo
mais ninguém, além de mim...
Ah, quantas vezes me senti assim!
Não há com quem conversar,
não há quem fale comigo,
não há quem me ouça também...
Não há no mundo ninguém...
Hoje o meu mundo está vazio,
sem gente, sem coisas, sem nada...
Hoje estou assim nesse estado
de solidão, tristeza, melancolia,
que nem lembro da alegria...
E é tão freqüente esse sentir
que até já me acostumei...
Tento reagir e melhorar
mas nada é capaz de me animar...
Hoje não consigo sorrir...
.
Suely Ribella ©

16 de out. de 2008

COISA TRISTE


coisas pequeninas
insignificantes
quase invisíveis

coisas inúteis
malvadas
quase perversas

coisas mesquinhas
raivosas
quase cancerígenas

coisas que pensas
vives delas
te alimentam

coisas delimitadas
aprisionam
tua razão

coisa infeliz
tua vida
sem amor

coisa oculta
aquela que faz de ti
um ser demente

Atit Ordep (Ferino Ferido)

Foto SCX

14 de out. de 2008

SEM CORES



Você roubou todas as cores do meu mundo

Que agora está branco e preto

E as vezes, de quando em quando, torna-se

rubro de dor

As poucas esperanças de um amor

Verdadeiro, sublime e tão sonhado

As vezes, por um instante, acho

Pode ser encontrado

Adeus não é o fim de tudo

Meu mundo está mesmo noturno

Mas as vezes, sem esforço, acabo

Pensando "Luz!"

Ferina * Karolina B

[link original da foto]

13 de out. de 2008

NOSSOS SONHOS



Por que não vens?

Se os sonhos que contigo tenho,
são os mesmos sonhos que comigo tens?
.
Suely Ribella ©

11 de out. de 2008

CULPA


guardo bem fundo
o desejo de mar
e a vergonha de não saber nadar

sempre com um pé na areia
sinto o meu mundo pequenino
na ponta dos dedos
do pé

não me aventuro
no mar aberto
com o medo de ser devorado
pela imensidão do mar

a culpa de existir
sempre na beira da praia
a ver barcos partirem

Atit Ordep

Desenho de PJ Crook

10 de out. de 2008

NO CÉU DE QUEM AMA



Nossa história é o além do sol

São lindas estrelas longe do tocar

Olho para o céu e vejo que estás

Brincando de ser e você será

Nuvens que desenham

O arrebatar de dois namorados


O que foi ficou e não voltará

Mesmo se eu pudesse

Pra quê restaurar o que foi lindo

Foi dois corações sorrindo

No céu de quem ama, vou imaginar

Que ainda temos um destino


Ferina* Karolina B

[foto de raphaeldeviantart]

SUTIL


Um toque
Um olhar
Um beijo
Tudo roubado
Tudo ligeiro
Sempre sutil
Nada concreto
Sempre mágico
Todo contato,
inesperado
Mas desejado
Fica sempre
a vontade de
ter mais,
muito mais.
.
Ferina*izil*

9 de out. de 2008

SELVAGENS


Hoje te quero selvagem,
faminto, sedento,
animal...
hoje, a minha vontade,
a minha fome,
a minha sede,
é voraz, feroz,
sexual...
Hoje nos pegamos de jeito,
nos viramos do avesso,
extravasamos tudo...
Amanhã,
se sobrar alguma coisa
de nós,
descansaremos
em paz...
.
Suely Ribella ©

5 de out. de 2008

ESSE ANJO




esse anjo que ilumina

o restinho de mim

o pouco dos olhares

os retalhos do lazer

o mínimo dos abraços

a rapa dos beijos

o toco de voz

Ilumine também

o que permanece inteiro:

Meu coração


(Ferina * Karolina B)

3 de out. de 2008

AQUÁRIO


tuas pernas
caminham sob a luz difusa
do aquário
no caminho do nosso quarto

são longas e esguias
feitas de prazer
e saltos de gazela

oiço os teus pés descalços
pisar a areia na beira do mar
estás à porta do quarto
esfregando uma perna na outra

abres a porta
e entram de enxurrada
os peixes vermelhos
contorcem-se e dão saltos
em cima da nossa cama

salto para o mar
e estrebucho para não me afogar
agarro-me às tuas pernas
subo até ao fim delas
e respiro finalmente

Atit Ordep

Foto de Paulo Almeida