28 de set. de 2009

SEQUER PALAVRA
















como poeta morto, as vezes bate
é maior do que qualquer tristeza

antes fosse dor, mas nem isso

nem ardência ou corte ou vento

é um momento para o nada

não é verbo, sequer palavra
quem me dera a dor de um amor
para sentir agora
voltar disso
do além-infinito
onde não se chora
não se ri,
tampouco mesmo estou aqui

juntando letras como a salvação

dos melhores poetas vivos


ferina*KarolinaB

25 de set. de 2009

TANTAS PERGUNTAS AO CAIR DA NOITE


onde estarás agora
que a noite caiu
e está escuro na rua

em que cama te deitas
quando o corpo abdica
de resistir ao dia

será que encontras
outros lábios para saciar
a sede de ternura

quantas mentiras
sobreviveram à realidade
da solidão do caminho de casa

em que cama vazia
te deitas agora

que trevas tens de transpor
para que um dia nasça
acordado por um beijo

quantos ciclos de cegueira
ensaias durante a tua vida

Atit Ordep

Foto de Paulo César Melges

22 de set. de 2009

CONTRASTES



Conheci o amor e a paixão,

encontrei a dor e a desilusão...
Não ando entre a vida e a morte,
ando entre a morte e a vida...
.
Suely Ribella ©

19 de set. de 2009

NO CAMINHO DE CASA


no caminho de casa pensava em ti
mas não tinha coragem para inverter o caminho
ficava de olhar especado nas montras
e vagueava por entre saias e corpetes
cores e formas da alienação
depois seguia em passo firme para casa
com um saco na mão
um prémio de consolação
a vida pode esperar

Atit Ordep

16 de set. de 2009

FOME


Nos teus olhos
repouso os meus
e deixo que a brisa
me entregue o teu hálito

com a barriga a dar horas
imagino saciar esta fome
com os teus beijos

Atit Ordep

Foto de Hugo Macedo

13 de set. de 2009

FOGO DE ARTIFÍCIO


são luzes o que procuras
na fricção dos corpos
um tremor que percorre o tronco
um êxtase brutal
uma carnificina dos sentidos
um prazer intenso mas descomprometido

isso não é amor
mas o que te importa?
a assepsia do corpo satisfeito e solitário
recupera do fogo de artifício

tudo sem as dores
do trabalho de parto
de uma vida em comum

Atit Ordep

Foto de Hugo Macedo

10 de set. de 2009

FLORES RESOLVEM TUDO


Se me aprontar alguma,
para se desculpar traga flores,
as suas preferidas.
Poupe-me de despesas,
flores perfumam
e também enfeitam
cadáveres.
.
Suely Ribella ©

7 de set. de 2009

SENTIDOS (CORAÇÕES)


agora encaixo os dedos
nas mãos
para poder sentir
o vento que trespassa os teus cabelos

seguro no nariz
para poder captar
os odores que a brisa
roubou no teu cabelo

coloco os meus olhos em órbita
para observar
as tuas meias a sair das pernas
e a tua roupa a despir a pele

moldo minha boca
embuto meus dentes
para te poder beijar
e morder os mamilos

aplico minhas orelhas
para te poder ouvir rugir
quando meu falo
te toca no fundo do ser

são os meus sentidos
rendidos ao teu esplendor

Atit Ordep

Foto de Atit Ordep

4 de set. de 2009

INCAPACIDADE


um arrepio de frio
transita por seu corpo

as lágrimas são confusas
no seu significado

as palavras colam-se no céu da boca
como papeis amarrotados

não encontra o tempo dos gritos
numa angustia feita de revolta contida

invade-o uma agonia breve
soprada por um aroma familiar

passou o tempo breve dos sonhos
e já não é capaz de dizer que a ama

Atit Ordep

Foto de Hugo Macedo –
www.hugomacedo.net

1 de set. de 2009

FIM DE ESTAÇÃO


quando chegares
avisa os pássaros
para que voem em bando
na direcção do sul

vens tarde
os frutos amadureceram
as crianças partiram
as folhas das arvores
já se vestiram de ferrugem
cansadas de dar flor

olha no céu
e procura uma estrela nova
que te indique outro caminho

aqui ficou apenas
uma recordação da vida
e aqueles que sabem sobreviver ao Inverno

Atit Ordep

Foto de Vitor Tripologos